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Quando uma atividade simples deixa de ser simples? Entenda o papel das funções executivas

18 de ago.
7 min de leitura

À primeira vista, algumas tarefas parecem muito simples.

Preparar um café. Organizar uma mochila. Seguir uma receita. Começar uma atividade. Resolver um problema. Cumprir uma sequência de compromissos ao longo do dia.

Mas, para realizar qualquer uma dessas tarefas, o cérebro precisa coordenar diferentes processos ao mesmo tempo.


É necessário saber o que fazer, por onde começar, manter a atenção, organizar as etapas, adaptar-se quando algo muda e acompanhar se aquilo que foi planejado está funcionando.


Essas habilidades fazem parte das chamadas funções executivas.

Quando elas estão comprometidas, a pessoa pode saber o que precisa fazer, mas encontrar dificuldade para colocar esse conhecimento em prática.


Por isso, compreender as funções executivas é também compreender melhor situações que acontecem diariamente na aprendizagem, no trabalho, na organização da rotina e na autonomia.


O que são funções executivas?

As funções executivas são um conjunto de processos cognitivos que ajudam o cérebro a organizar, planejar, controlar e adaptar comportamentos direcionados a objetivos.

Elas são importantes sempre que precisamos lidar com uma situação que exige mais do que uma resposta automática.

Por exemplo:

Você precisa sair de casa às 8h.

Para isso, precisa:

  • acordar;

  • organizar seus pertences;

  • escolher o que levar;

  • se vestir;

  • preparar ou tomar o café;

  • verificar o horário;

  • lidar com imprevistos;

  • ajustar o planejamento caso algo saia diferente do esperado.

Uma rotina aparentemente simples envolve diversas funções cerebrais trabalhando em conjunto.


Quais são as principais funções executivas?


As funções executivas não são uma única habilidade.

Elas envolvem diferentes processos que se relacionam entre si.

Entre eles estão:

Planejamento

Capacidade de definir etapas para alcançar determinado objetivo.

Organização

Capacidade de estruturar informações, objetos, tarefas e ações de maneira funcional.

Memória de trabalho

Permite manter e manipular informações temporariamente enquanto realizamos uma atividade.

Controle inibitório

Ajuda a controlar respostas impulsivas e direcionar o comportamento de acordo com o objetivo.

Flexibilidade cognitiva

Permite mudar de estratégia, adaptar-se a novas informações e lidar com mudanças.

Monitoramento

Permite acompanhar o próprio desempenho e perceber quando é necessário corrigir ou modificar uma estratégia.

Essas funções não trabalham isoladamente.

Na vida real, elas frequentemente atuam de maneira integrada.


“Mas ela sabe fazer. Por que não consegue?”


Essa é uma dúvida muito comum.

Imagine uma pessoa que sabe preparar uma refeição.

Ela conhece os ingredientes.

Sabe utilizar os utensílios.

Já realizou aquela atividade diversas vezes.

Ainda assim, pode ter dificuldade para:

  • organizar os ingredientes;

  • iniciar a tarefa;

  • seguir a sequência correta;

  • perceber que esqueceu uma etapa;

  • adaptar a receita diante de uma mudança;

  • concluir a atividade.

Nesse caso, o conhecimento sobre a tarefa pode estar preservado.

A dificuldade pode estar relacionada à maneira como o cérebro organiza e executa as etapas necessárias para chegar ao objetivo.

É justamente por isso que observar apenas o resultado final pode não ser suficiente para compreender o que está acontecendo.


Funções executivas e aprendizagem

As funções executivas têm papel importante no processo de aprendizagem.

Para aprender algo novo, não basta receber informação.

É necessário conseguir:

  • direcionar a atenção;

  • manter informações relevantes;

  • organizar estratégias;

  • monitorar erros;

  • mudar de estratégia quando necessário;

  • controlar distrações;

  • planejar como realizar uma tarefa.

Uma criança pode compreender determinado conteúdo, por exemplo, mas apresentar dificuldade para organizar os passos necessários para estudar.

Pode saber o que precisa fazer, mas não conseguir iniciar.

Pode começar uma atividade e abandoná-la diante de uma dificuldade.

Pode compreender a explicação, mas ter dificuldade para organizar as informações e utilizá-las posteriormente.

Por isso, dificuldades escolares nem sempre podem ser compreendidas apenas pelo conteúdo acadêmico.

É importante observar como a criança aprende e quais processos estão envolvidos nesse aprendizado.


E no adulto?

As funções executivas também estão presentes constantemente na vida adulta.

Imagine uma pessoa que precisa:

  • organizar uma agenda;

  • administrar compromissos;

  • cumprir prazos;

  • preparar uma refeição;

  • resolver um problema inesperado;

  • alternar entre diferentes tarefas;

  • tomar decisões.

Tudo isso exige planejamento, organização, atenção e capacidade de adaptação.

Quando alguma dessas funções está comprometida, a pessoa pode perceber que tarefas que antes eram simples passaram a exigir muito mais esforço.

Isso pode acontecer em diferentes contextos, inclusive durante processos de reabilitação neurológica.


Funções executivas também influenciam a autonomia


Autonomia não significa apenas conseguir realizar fisicamente uma atividade.

Também envolve conseguir organizar o que precisa ser feito, tomar decisões e adaptar estratégias diante das situações do cotidiano.

Uma pessoa pode ter capacidade motora para preparar uma refeição, por exemplo, mas precisar de apoio para organizar as etapas.

Outra pode conseguir se vestir sozinha, mas ter dificuldade para escolher o que precisa levar para determinada situação.

Por isso, quando pensamos em funcionalidade, precisamos considerar não apenas se a pessoa consegue realizar uma tarefa, mas também como ela consegue realizá-la.


Por que atividades do cotidiano são tão importantes?


Porque muitas funções executivas aparecem justamente quando precisamos lidar com situações reais.

Uma atividade cotidiana pode exigir:

planejamento + atenção + memória + organização + flexibilidade + tomada de decisão.

Por exemplo, preparar uma refeição pode envolver:

  1. decidir o que será preparado;

  2. verificar os ingredientes;

  3. organizar os utensílios;

  4. seguir uma sequência;

  5. controlar o tempo;

  6. perceber um erro;

  7. modificar a estratégia;

  8. finalizar a atividade.

Por isso, observar a pessoa apenas realizando tarefas isoladas pode não revelar completamente suas dificuldades funcionais.

O contexto importa.


O que acontece quando uma estratégia não funciona?


Uma das características importantes das funções executivas é a capacidade de adaptação.

Imagine que uma pessoa esteja realizando uma tarefa e algo inesperado aconteça.

Um ingrediente acabou.

O caminho mudou.

Um equipamento não funciona.

Uma informação foi alterada.

Nesse momento, o cérebro precisa abandonar ou modificar a estratégia inicial e encontrar outra possibilidade.

Essa capacidade é chamada de flexibilidade cognitiva.

Quando ela está comprometida, mudanças aparentemente pequenas podem gerar dificuldade desproporcional.

A pessoa pode insistir na mesma estratégia mesmo quando ela não está funcionando ou apresentar dificuldade para encontrar alternativas.


Isso significa falta de esforço?


Não necessariamente.

Essa é uma distinção importante.

Uma pessoa pode querer realizar uma tarefa e ainda assim encontrar dificuldades para planejá-la, iniciá-la, organizar suas etapas ou adaptá-la.

Interpretar automaticamente esse comportamento como:

“preguiça”
“falta de vontade”
“desorganização”

ou

“falta de interesse”

pode impedir que a verdadeira dificuldade seja compreendida.

Antes de julgar o comportamento, é importante perguntar:

O que essa tarefa exige do cérebro?


Como as funções executivas podem ser avaliadas?


A avaliação precisa considerar diferentes aspectos do funcionamento cognitivo e, principalmente, como essas habilidades aparecem na vida da pessoa.

Dependendo do caso, podem ser investigados aspectos relacionados a:

  • atenção;

  • memória;

  • planejamento;

  • organização;

  • flexibilidade;

  • controle inibitório;

  • memória de trabalho;

  • resolução de problemas;

  • velocidade de processamento.

A avaliação neuropsicológica pode contribuir para compreender esse funcionamento de maneira mais ampla.

É importante lembrar que uma dificuldade isolada não é suficiente para estabelecer uma conclusão sobre o funcionamento cognitivo de uma pessoa.

O contexto, a história e as características individuais precisam ser considerados.


E como a reabilitação pode ajudar?


Quando existe uma dificuldade funcional relacionada a processos executivos, o trabalho pode envolver estratégias específicas para favorecer o desempenho da pessoa.

Dependendo das necessidades e objetivos, podem ser trabalhados aspectos como:

Planejamento

Organizar uma atividade em etapas menores e mais claras.

Organização

Criar estratégias para estruturar informações, materiais e tarefas.

Memória de trabalho

Utilizar recursos que auxiliem na manutenção e manipulação das informações necessárias para uma atividade.

Flexibilidade

Treinar diferentes formas de solucionar um mesmo problema.

Monitoramento

Ajudar a pessoa a perceber erros e identificar quando uma estratégia precisa ser modificada.

O objetivo não é simplesmente melhorar o desempenho em uma atividade terapêutica.

É buscar estratégias que possam ter significado funcional na rotina.


A importância da atuação interdisciplinar


As funções executivas estão presentes em diversas áreas da vida.

Elas podem influenciar:

  • aprendizagem;

  • comunicação;

  • movimento;

  • alimentação;

  • organização da rotina;

  • participação social;

  • autonomia.

Por isso, dependendo das necessidades do paciente, diferentes profissionais podem contribuir para o processo de cuidado.

A Neuropsicologia pode investigar aspectos do funcionamento cognitivo.

A Terapia Ocupacional pode trabalhar a relação entre essas habilidades e as atividades do cotidiano.

A Psicopedagogia pode atuar diante de demandas relacionadas à aprendizagem.

A Fonoaudiologia pode contribuir quando existem demandas relacionadas à comunicação e linguagem.

A Fisioterapia pode trabalhar aspectos motores e funcionais que também envolvem planejamento e adaptação do movimento.

A Nutrição pode participar quando questões relacionadas à alimentação fazem parte das necessidades do paciente.

Essa integração permite construir estratégias mais coerentes com a realidade de cada pessoa.


O objetivo não é fazer tudo perfeitamente


Na reabilitação, o objetivo nem sempre é eliminar completamente uma dificuldade.

Em muitos casos, o trabalho também envolve encontrar estratégias que permitam à pessoa realizar uma atividade de maneira mais funcional.

Isso pode significar:

  • dividir uma tarefa em etapas;

  • utilizar pistas visuais;

  • organizar materiais;

  • estabelecer rotinas;

  • modificar o ambiente;

  • utilizar recursos de apoio;

  • aprender novas estratégias;

  • adaptar determinada atividade.

Uma estratégia adequada pode transformar uma tarefa que antes parecia impossível em algo mais acessível.


Quando uma dificuldade merece atenção?


Todo mundo pode esquecer algo, perder a organização ou ter dificuldade para planejar uma tarefa ocasionalmente.

A atenção aumenta quando essas dificuldades são frequentes, persistentes ou começam a interferir significativamente na rotina.

Alguns exemplos incluem:

  • dificuldade frequente para iniciar tarefas;

  • problemas recorrentes para organizar atividades;

  • dificuldade para seguir sequências;

  • problemas para administrar compromissos;

  • dificuldade para mudar de estratégia;

  • abandono frequente de tarefas;

  • necessidade constante de ajuda para atividades que antes eram realizadas com autonomia.

Nesses casos, uma avaliação especializada pode ajudar a compreender melhor o funcionamento da pessoa.


Funções executivas e vida real


Uma das principais razões para estudar funções executivas é entender que cognição não existe separada da vida cotidiana.

Planejar uma tarefa é uma função cognitiva.

Mas preparar o café da manhã é uma atividade da vida.

Organizar informações é uma função cognitiva.

Mas conseguir cumprir um compromisso é uma necessidade cotidiana.

Flexibilidade cognitiva é uma habilidade cerebral.

Mas conseguir mudar os planos diante de um imprevisto é algo que fazemos todos os dias.

É nessa conexão entre cérebro e cotidiano que a reabilitação funcional encontra seu propósito.


Como o Neuralis atua?


O Instituto Neuralis trabalha com neuroreabilitação funcional e cognitiva, buscando compreender como diferentes funções cerebrais interferem na rotina e na participação de cada pessoa.

A partir das necessidades identificadas, a equipe pode construir estratégias individualizadas, considerando os objetivos terapêuticos e as demandas reais do paciente.

A atuação interdisciplinar permite que diferentes profissionais contribuam com seus conhecimentos e dialoguem sobre aspectos complementares do funcionamento da pessoa.

O foco não está apenas em melhorar uma habilidade dentro da clínica.

Está em favorecer que essa habilidade tenha significado na vida real.


Uma atividade simples pode esconder uma enorme quantidade de processos cerebrais.

Planejar.

Organizar.

Prestar atenção.

Lembrar.

Escolher.

Inibir respostas.

Mudar de estratégia.

Monitorar.

Tudo isso acontece para que possamos realizar tarefas que, muitas vezes, fazemos sem pensar.


Quando alguma dessas funções apresenta dificuldades, compreender o que está acontecendo é mais importante do que simplesmente observar o comportamento final.

Porque, muitas vezes, a pessoa não precisa apenas de mais esforço.

Ela pode precisar de uma estratégia diferente.

E é justamente nesse espaço entre o funcionamento cerebral e a vida cotidiana que a neuroreabilitação pode atuar.


No Neuralis, ciência, tecnologia e atuação interdisciplinar se encontram para transformar conhecimento sobre o cérebro em estratégias que favoreçam funcionalidade, autonomia e qualidade de vida.

Neuralis, em cada conexão uma transformação.


Instituto Neuralis

Neuroreabilitação funcional e cognitiva

Ciência, tecnologia e atuação interdisciplinar para compreender o cérebro e transformar conhecimento em estratégias que façam sentido para a vida real.

Neuralis, em cada conexão uma transformação.


 
 
 

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